Mortais como soldados e divinos como anjos ,para vencer as adversidades dessa vida...
Wednesday, September 01, 2010
Tardes de inverno-
Tardes de inverno-
Sentado no banco de madeira da antiga igreja, eu chorava a emoção trazida pela música que aquela jovem cantava expressando tanto sentimento.Lágrimas deslizavam do meu rosto de espasmos e de graça,já molhavam as sensíveis folhas do livro sagrado.Ao seu redor só existia luz.Alguns anjos cantavam com ela.
Era como se ela falasse em outro estado de espírito e nem a morte tinha tanto poder de dominar. Sua voz e o cheiro das flores junto ao enferrujado portão da casa. Os insetos lutando no visgo gelado,do muro desgastado,a penumbra da tarde de inverno escondendo o sol mais cedo;lhe trazia em pedaços de esperança ,antes que ela se apresentasse em sua forma material.
Então ela chegava...
Sua presença se coreografava com a palmeira que se inclinava ao vento. Guiavam o seu caminho, pequenas sementes que passeavam no ar. Sua voz chegava antes que seu corpo virasse a esquina.Falava alto para se anunciar.Fazia parte do seu jogo de conquistas,martirizar minha expectativa.
Todos os dias a esperava em frente minha casa, na calçada molhada forrada com pedaços de plástico junto às folhas trazidas pelo vento. É impressionante como tal simplicidade, tornou esse instante tão mágico e me fez voltar pra ele.
Sua saia num jeans decorado, sua blusa e o sereno do inverno descortinavam os traços do seu corpo coberto pela graciosa voluptuosidade juvenil.
Ela falava com o mesmo nervosismo estudantil como da primeira vez que nos beijamos.
Seus cadernos, os mesmos estudantis, molhavam-se enquanto ela mostrava o meu nome escrito nas flores rosadas dos papeis de carta.
O seu beijo possuía o sabor da fruta mais doce. Era macio e delicado como travesseiros do céu.
Passeávamos de mãos dadas, pelas ruas encharcadas observando a “natureza urbana”.
Olhávamos admirados os elevados morros vestidos de uma neblina azulada. Nos dava a impressão de magia e mistério.
Namorávamos escondidos de nossos perseguidores, seguindo sempre rumo a bairros distantes das nossas casas. Típico de qualquer adolescente da época.
Minha memória, caro leitor. Só me permitiu chegar até esse momento.O qual um mistério natural da lembrança,me fez sentir o mesmo cheiro da época da mocidade.
Revelou-se nessa tarde fria de inverno, a mesma elegância e romance de outrora.
E devo concentrar-me, nesses cheiros de agora,para que um dia, enfraquecido numa cadeira de balanço,Possa lembrar-me desse momento também.
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